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Um dia na vida de um estudante de Medicina
Cá estou eu para realtar mais um dia na vida de um estudante de Medicina em terras "castellanas"!

Começa o dia...bem cedo...7 da manhã e como prototipo de estudante típico inspiras a bons pulmões e gritas (depois de mandares uma valente porrada no botão de "snooze" pela quilhésima vez) nada mais abrir os olhos: «Adoro o cheiro de apontamentos frescos pela manhã!» e começa a dura batalha para abrir os olhos! Pés no chão o frio desperta o teu sistema nervoso simpático que reage com uma valente vasoconstrição, aumentado as resistências periféricas, acelerando por mecanismo reflejo o automatismo cardíaco o que conleva a uma subida da frequência cardíaca, e em conjunto ambas aumentam a tua Tensão Arterial, preparando o corpo para a bipedestação. Abres meio olho nesta altura... deambulas o curto espaço que existe do quarto à casa de banho esbarrando-te pelas paredes, que em minha casa te vão pintando de branco, parecendo um dálmata quando chegas ao espelho Abres outro meio para te puderes rir da tragicomédia que se apresenta no espelho!

Saltando obviamente os passos da higiene pessoal que em nada ficariam atrás das de um felino criterioso :) e depois de uma corrida de 5km se o frio ainda não te despertou considera-te próximo de um coma, pois nesta cidade de clima mediterrânico a Primavera é apenas uma coisa bonita que se fala nas escolas primárias ou que nos chega através das montras cheias de bikinis, óculos de sol e bolas de praia...mas abrir definitivamente os olhos é só chegas ao quarto e escandalizas-te com o facto de teres perdido 1h30' de estudo o que poderia representar a revisão de 8 ou 10 capítulos... a partir daqui a história acelera, mas também o ritmo frenético da manhã...procuras entre os despojos têxteis que se encontram "esparcidos" pelo teu quarto algo que pareça suficientemente sóbrio para "lucir" num espaço onde a extravagância apenas se nota pela maneira como se ordenam milimétricamente as cores dos marcadores fluorescentes que ao longo do resto do fia pintaram furiosamente km's de apontamentos! "Engulipas" o pequeno-almoço sabendo que como perdeste tanto tempo não pararás até à hora de comer («É preciso recuperar! É preciso recuperar!»-dizes entre bolacha e bolacha, enquanto o teu amigo dominicano se abençoa pela ignorância e a colega italiana se benze por ser já licenciada).

De repente chegas à rua e deparaste com um cenário saído do filme 28 dias... 8h30 e nem vivalma na rua!!! nõa há autocarros, buzinas, encontrões...o que é que aconteceu? Caiu a bomba atómica e a tinta pulgosa do meu apartamento tem tanto chumbo que eu sobrevivi?????? Aparece por fim um estudante a viver o mesmo drama que tu (o primeiro, o do "jo'er que llego tarde, que ya no me da tiempo para ver los 60 temas que tenía para hoy") e perguntas onde está todo el mundo a que responde automáticamente perguntando se também era de Medicina... Sim retorqui eu assombrado com a perspicácia... Hoje é feriado por isso não há ninguém por aqui, mas imagino que tendo exames à porta quem é que se para nesses pormenores, né?
Ora aí está um primeiro indício da cumplicidade que compartimos os estudiantes de medicina pelo simples facto de sermos estudantes de medicina o tempo é relativo!!! Mede-se em número de capítulos que faltam, em dias de estudo, em seminários obrigatórios em trabalhos para entregar nunca em dias laborais ou fins-de-semana já para não falar de feriados, já que a diferença entre eles é que ou estudas na faculdade ou estudas noutro lado qualquer...para mim que como bom pseudo intelectual gosto de estudar em cafés o tempo ainda é mais relativo porque a ausência de contacto com os histéricos dos meus colegas o dia e as horas são medidas pelo nivel de cafeína que vou consumindo e pelo densa que está a minha vista de tanto decifrar códigos hieroglificos de apontamentos emprestados que vou parasitando aos meus colegas juniores..

Depois da amena cavaqueira, e à medida que nos iamos aproximando do Monstro, engrossaram os passeios uma multidão de estudantes que outorgaram àquela plácida manhã uma tonalidade de Torre de Babel (não tão a ver bem o que gritam espanholas histéricas a essas horas), até que... a  imponência de mais um edificio em tijolo-de-burro (olhem a ironia) se ergue com o nome de "Aulario" que é onde centenas de estudantes se acotovelam para conseguir um exíguo cubículo iluminado com luz artificial digna de um estádio de futebol, disponibilizado pela UVa (Univ de Valladolid) para os estudantes em época de exames... está aberto 24h! podes entrar mediante o teu cartão electrónico mas uma vez lá dentro a pressão dos estudos abate-se sobre ti como um elefante caido de um precipicio... as histéricas que até agora vinham diminuindo o tom de voz aceleram o discurso para saudar as amigas como se fosse a última vez que se vissem, o estranho "amigo" que te informou sobre o feriado desaparece tartamudeando algo que se parece a «Mierda que llego tarde! no me da la vida p'a esto!» e tu que combinaste com alguns amigos para partilhar a dor de ter que estudar quilos de matéria à velocidade da luz começas a sentir um vazio no estomago dizendo que não sobreviverás à intensidade daquela atmosfera.

Depois de ter atravessado a nuvem tóxica dos tabacodependentes "adentras-te" nesse monstro devorador de sonhos de jovem procurando caras conhecidas. Não se ve nada mais que cabeças debruçadas, aqui e além o ruido de um ventilador de computador e a tosse que não pode faltar num ambiente silencioso, mas não há um único lugar de vago...."Dani! Portu!"- gritam em surdina - "Sabes que hora es? Te hemos guardado sitio pero ya nos estaban mirando raro! Has visto los trastornos de conducción? Este año han cambiado la cátedra y lo han dado todo diferente? Y el Tema 57 lo tienes? El muy cabrón del Prof Cowboy (está codificado para que ele não saiba :P) nos ha dejado apenas el libro este año!!!! VAMOS A SUSPENDER!!!!!!!!!!!!!!"
Não traduzo porque nem a mim me deu tempo para descodificar a mensagem sem que me sentasse para acalmar os ânimos e como Indiana Jones apresentar o Santo Graal -> os meus apontamentos!!! Os meus eternos e infalíveis companheiros (dividem o posto de maior carinho com o meu computador)
Tranquilos tenho tudo :) Sabendo no entanto que o meu coração estava prestes a cair em ritmo de Torsades de Pointes, Fibrilhação Ventricular quase por ter imaginado por segundos que me faltava algo! A sensação de Deus que te transmitem de seguida vale a pena as horas que gastaste tipo monge copista a estudar os gatafunhos de mil e um caloiros que te foram engrossando as fotocopias e que acabaste por sumarizar em esquemas, algorritmos e pontos. Pelo menos permitem adiar o stress que acabaria por viver mais tarde ao ver que realmente também não tinha tempo. Mas como disse antes sou um gajo positivo!

Sucedem-se as horas em que a tua companhia se faz de uma seleção criteriosa de música de forma a que o estado de ânimo que se vive e antes de um exame se coordene com o esforço mental que precisas de fazer para ler pela milionésima vez algo que sabes que não interessará para nada porque o que te vão perguntar é o pé de página que esqueceste de apontar. Assim Metallica, Guns&Roses, Bob Dylan, The Animals, Deep Purple, The Who para abrir que tás cheio de força; Jimmi Hendrix, The Doors, Jefferson Airplane quando entras na onda de omolete mental e Joy of Division para as fases mais crónicas do desespero que vêem a ser mais ou menos perto da hora do almoço. Anormalmente calmo, pensando no meu recém descoberto amuleto, fui folheando,
                                                                folheando,
                                                                                    folheando, interrompendo o meu estudo de cada vez que uma lata de Red Bull, Burn, Pink ou qualquer outra marca de bebidas energéticas atingia o fundo do balde do lixo ou para tirar uma dúvida que ainda me assaltava o espírito com a pilha de nervos reunida que era toda a sala. E o incrível é saber que 99,9% dos seus ocupantes são médicos e conhecem perfeitamente os malefícios das bebidas energéticas ricas em taurina
Taurina e uma breve descrição das funções fisiológicas
A Taurina é um aminoácido não essencial presente naturalmente no nosso organismo. Participa numa série de funções fisiologicas nomeadamente a nivel da formação de ácidos biliares. No entanto é no seu mecanismo intracelular que reside o segredo como energizante, potenciando os intercambios hidroelectrolíticos diminuem o potencial umbral das células excitáveis

É incrivel mas é verdade estudar Medicina faz mal à saúde, senão vejam a diferença

Antes!!!
Depois!!!!

estes são dois casos práticos, dois malucos que decidiram enveredar por este curso e esta é a diferença que se impôs no seu organismo XD
Dormes mal (vejam o meu caso que estou à 72 com 6h de sono), comes pior (o almoço de hj foi pasta com atum e maionese levada num tupperware para o aulario), não tens vida social que se aprecie (comparado com os cursos de educação primária [aqui chama-se Magisterio e serve para dar aulas ao 1º ciclo], Musicologia [não Música como interprete, mas sim como historiador/futuro crítico que é completamente diferente], informática [sim até esses tem vida social comparados connosco, pelo menos aqui em Espanha]) e quanto a aproveitar o fogo que é inerente aos que chamam os melhores anos da tua vida fica para depois entre urgência e urgência, entre revista médica e posters, entre congressos e jornadas (depois admiram-se que aquilo seja pior que as orgias romanas é tanta a líbido acumulada que faz empalidecer as pseudo séries de medicina que populam o panorama televisivo)
Bem continuando a minha crónica, lá continuei eu entre ruido que o silêncio cheio de unhas ruidas, fungadelas e tosses convulsas... a disciplina de cardiologia é composta dos seguintes temas

Lección 1.- Expresión Morfológica de la patología endocardíca,miocardíca y pericardíca......check
Lección 2.- Expresión morfológica de la enfermedad hipertensiva arterial. Aneurismas......check
Lección 3.- Radiología cardíaca......check
Lección 4.- Cardiología nuclear......check
Lección 5.- Insuficiencia Cardíaca.Generalidades.Función Ventricular......check
Lección 6.- Insuficiencia Cardíaca.Cuadro Clínico.Diagnóstico y Tratamiento.....check
Lección 7.- Bases farmacológicas para la terapeutica de la Insuficiencia cardiaca congestiva.....check
Lección 8.- Edema Agudo de Pulmón..Shock Cardiogénico.....check
Lección 9.- Cirugía de la Insuficiencia Cardiaca......check
Lección 10.- Fiebre reumática y Endocarditis......check
Lección 11.- Enfermedades valvulares:Generalidades,Estenosis Mitral.....check
Lección 12. Enfermedades valvulares:Insuficiencia Mitral.....check
Lección 13.- Enfermedades valvulares:Estenosis Aórtica.....check
Lección 14.- Enfermedades valvulares:Insuficiencia Aórtica.....check
Lección 15.- Enfermedades valvulares:Valvulopatía Tricúspide.....check
Lección 16.- Tratamiento quirúrgico de las Valvulopatías Mitral y Aórtica......check
Lección 17.- Tto. quirúrgico de la Valvulopatía Tricúspide y de las Plurivalvulopatías.....check
Lección 18. . Enfermedad coronaria:Aspectos Generales.....check
Lección 19.- Enfermedad coronaria:Angina de Pecho Estable.....check
Lección 20.- Enfermedad coronaria:Síndromes Coronarios Agudos sin elevación ST.....check
Lección 21.- Enfermedad coronaria:Síndromes Coronarios Agudos con elevación de ST.....check
Lección 22.- Enfermedad coronaria:Complicaciones del Infarto de Miocardio.....check
Lección 23. Bases farmacológicas para la terapeútica de la enfermedad coronaria.....check
Lección 24.- Cirugía Coronaria.:By Pass Aorto-Coronarios.....check
Lección 25.- Cirugía Coronaria:Tratamiento quirúrgico de las Complicaciones del Infarto de
Miocardio.....check
Lección 26.- Mioardiopatías Generalidades:Miocardiopatía Dilatada.....check
Lección 27.- Miocardiopatía Hipertrófica.....check
Lección 28.- Miocardiopatía Restrictiva.....check
Lección 29.- Trasplante Cardiaco.....check
Lección 30.- Enfermedad del pericardio:Pericarditis Aguda,Derrame Pericá rdico.....check
Lección 31.- Enfermedad del pericardio:PericarditisConstrictiva.,Taponamiento Cardiaco.....check
Lección 32.- Aspectos quirurgicos de los Derrames pericárdicos.....check
Lección 33.- Tromboembolismo Pulmonar.....check
Lección 34.- Cor Pulmonale crónico.....check
Lección 35.- Trastornos del ritmo supraventriculares.....check
Lección 36.- Trastornos del ritmo ventriculares.....check
Lección 37.- Trastornos de la conducción:Bloqueos A-V.....check
Lección 38.- Trastornos de la conducción:Bloqueos intraventriculares. Síndromes de
Preexcitación.....check
Lección 39.- Cirugía de los trastornos del ritmo y de la conducción.....check
Lección 40.- Tumores y masas cardiacas.....check
Lección 41.- Hipertensión Arterial.Generalidades.Fisiopatología.....check
Lección 42.- Hipertensión Arterial.Diagnóstico y Tratamiento. Cardiopatía Hipertensiva.....check
Lección 43.- Enfermedades de la Aorta ascendente.....check
Lección 44.- Cirugía de las arterias digestivas. Isquemia mesentérica aguda. Isquemia
mesentérica crónica. Síndromes compresivos vasculares de las arterias.....check
digestivas. Cirugía de la arteria Renal. Fibrodisplasias . Aneurismas.....check
Lección 45.- Traumatismos cardíacos. Patología de la aorta ascendente y descendente. Cayado
aórtico......check
Lección 46.- Enfermedad aneurismática. Aneurismas de la aorta torácica, abdominal y
periféricos. Pseudoaneurismas......check
Lección 47.- Arteriopatías colusivas crónicas. Arteriopatías de los miembros inferiores ......check
Lección 48.- Arteriopatías oclusivas agudas. Embolias, Trombosis. Isquemias agudas de los
miembros inferiores.....check
Lección 49.- Traumatismos vasculares arteriales, venosos, linfáticos y mixtos......check
Lección 50.- Raynaud y otros Síndromes Vasculares......check
Lección 51.- Enfermedades vasoespásticas. Aspectos quirúrgicos. Tratamiento de la
Enfermedad de Raynaud.....check
Lección 52.- Síndrome varicoso. Complicaciones de las varices. Tratamiento quírúrgico......check
Lección 53.- Enfermedad tromboembólica. Flebotrombosis y tromboflebitis. Aspectos
quirúrgicos. Profilaxis quirúrgica......check
Lección 54.- Angiodisplasias. Angiomas. Síndrome de Klippel-Trenaunay y Parkes-Weber.
Fístulas Arteriovenosas,adquiridas,traumáticas y quirúrgicas.....check
Lección 55.- Enfermedades de los linfáticos. Linfagitis. Linfedema......check
Lección 56.- (Síndrome del desfiladero Cérvico-Torácico). Síndrome de la apertura torácica
superior. Compresión del desfiladero de los escalenos Síndrome compresivo costo-clavicular. Síndrome del pectoral menor......check
Lección 57.- Cirugía de los troncos supraórticos. Cirugía carotídea. Quemodectoma. Cirugía
de las arterias vertebrales.Sdome. del robo de la subclavia.....check

Chega-se às 20h e eu quero saber quem é o mortal comum ou mesmo o universitário de outro curso que consegue dar uma volta por este temário que inclui para cada um das patologias a sua respectiva etiologia, etiopatogenia, fisiopatologia, quadro clínico, paciente tipo, dados de exame fisico e exames complementares diagnóstico com a sua justificação, estratificação de risco e estrategia terapeutica/ técnica cirúrgica e apesar da sua extensão representa apenas uma parte daquilo que um cardiologista tem que saber, mas para nós simples aspirantes a médicos generalistas (afinal saímos todos assim da fac) tem muito que se lhe diga, mais o que tens que trazer na bagagem (leitura de ECG, interpretação de EcoDoppler ou Eco em modo M importantíssimo nas valvulopatías, fisiologia normal do coração com as suas conexões com o Sistema neuro-endocrino, o sistema renal o sistema respiratorio) que no fundo é o que torna a Medicina tão bonita e estimulante mas saber que te vão perguntar das miocardiopatias qual é o tipo de Miocardiopatia hipertrófica que é mais frequente nos japoneses e que tem uma apresentação raríssima pois implica uma hipertrofia do ápex cardiaco (e que só por acaso é a Miocardiopatia de Yamaguchi cuja ventriculografia parece um as de espadas e no ECG apresenta uma onda T acuminada e negativa) dá cá uma raiva!!!!!! Só se um dos turistas de olhos rasgados que vêm fazer fotos aos nossos monumentos cair redondo com sinais de ICCongestiva de instauração súbita com dispneia, congestão venosa, dor torácica e palpitações (vejam as probabilidades) é que nos serviria de algo... entretanto se a um comum transeunte português lhe der o badagaio eu não sei que fazer. Até nisto a educação dos portugueses põe os outros povos em primeiro...

Volto para casa... os meus colegas continuam....também para eles já não serve cafeína e passamos a palavras maiores unindo-se aos consumidores de RedBull, não fosse estar verdadeiramente cansado e consciente que um micromilionésimo de grama de cafeína faria explodir a veia aorta ou será da arteria cava? agravaria o meu bloqueio auriculo-ventricular o potenciaria a minha taquicardia supraventricular? descompensaria a minha encefálopatia cardiogénica ou a minha cardiopatia encefálica?...

A estas horas já não dá para mais... deixo que a serotonina libertada quando quando o estômago está cheio (é verdade escrevo isto enquanto janto) faça efeito e permita regressar deste estado hiperexcitado a que me submeti estes últimos dias no esforço megalómano de conseguir apanhar tudo e metê-lo a talho de foice num cérebro cada vez mais apertado pela responsabilidade que o título vai trazer à minha pacata vida de ex-aprendiz de feiticeiro/feiticeiro júnior...bem fazendo jus às palavras da minha mãe, agora só me resta manter a calma, a descontração e estupidez natural (que de por si só já é mais que suficiente, se não quem diria que antes do último exame me dava ao trabalho de escrever esta "parrafada" monumental)

Não há-de ser nada sofrendo como bom português lá irei eu tipo cordeiro a caminho do matadouro para que me extorsionem o conhecimento acumulado neste último mês à base de muito marranço e esperar que não me descaia...e no final de contas como este é um exame oral e não tenho hipóteses de esquecer-me de virar uma página de respostas, nem de saltar perguntas à frente na transposição das respostas para a folha eletrónica talvez corra tudo bem....

Wish me luck!!!!
Eu não sei se já vos disse mas estou a fazer um estágio de cirurgia em oftalmologia, de qualquer das formas para quem tenha andado distraído, eu 'tou a fazer um estágio de cirurgia no serviço de Oftalmologia do Nuevo Hospital Rio Hortega - Valladolid! E como diz o ditado, se não os podes vencer junta-te a eles e é nessa perspectiva que tenho andado a aproveitar o tempo para explorar o máximo que posso o acesso que tenho aos brinquedos que fazem parte de uma consulta de Oftalmologia bem apetrechada.

Desta vez trago imagens da OCT (Optical Coherence Tomography)! A sério é um aparelho que mede aprox (a olho, hã! perceberam) 40x60x70cm (x,y,z) mas que vale mais do que o seu peso em diamantes, que eu já inclui na minha lista de prendas para o Natal :p (ouviste mãe hahahaha).
Em termos gerais trata-se de um aparelho que permite analisar a estructura da retina mediante interferometria de um feixe de luz próximo da gama infravermelha que é projectado sobre o fundo do olho.
De forma mais precisa passem por  OCT Theory que é suficientemente explicativo e completo (é preciso ter em conta que se trata de uma página da Wikipedia, mas a informação é ratificada pelo meu Prof de Olhos que me mandou ler exactamente a mesma coisa :p)

Porquê todo este entusiasmo? Bem primeiro porque tive a oportunidade de passar os meus olhos por um, aprendi a manejá-lo e a sacar informação diagnóstica do bicharoco, segundo porque saca umas imagens espectaculares e terceiro porque é uma das ferramentas mais potentes no diagnóstico de patologia retiniana (degeneração macular associada à edade, neovascularização retiniana, membranas epirretinianas, edemas subretinianos vários,...), extremamente útil no "follow-up" de Retinopatias Diabéticas, Hipertensivas, Desprendimentos Posteriores de Retina, Desprendimentos de Retina e na avaliação da eficácia dos tratamentos que incluem Terapia Fotodinâmica, injecções intraoculares de anti-VEGF... and so on and so forward! Tipo esta preciosidade de máquina dá para mil e uma coisas.

Sem mais demoras deixo-vos as imagens dos meus lindos olhos submetidos à análise do aparelhómetro...
Como podem ver o aparelho dedica-se a sacar uma imagem do fundo de olho com metade do esforço que se faz através de um exame na lâmpada de fenda ou biomicroscópio ocular ou naquele aparelho de tortura que produziu as imagens que pus noutro post (Fundus Camera), no entanto a foto é a preto e branco.

Bem, vêm aquele quadradinho amarelo? Durante o exame colocamos este quadrado sobre a zona macular, calculada pela distância à papila óptica automáticamente pela máquina, e que consiste na área que vai ser analizada pela máquina. Imediatamente a seguir apresenta uma pequena imagem bidimensional e tridimensional que mostro nas seguintes imagens.


Nestas imagens, pode apreciar-se o relevo que a fóvea exerce pela separação dos corpos celulares de forma a que a luz incida directamente nos fotorreceptores o que confere à mácula as características extraordinárias que fazem do olho humano uma máquina excepcional!

Depois podemos reconstruir a imagem de forma a podermos selecionar um corte em qualquer das coordenadas espaciais tal como se vê na imagem seguinte...
É, ou não é um espectáculo??? Podem ver a imagem em alta resolução no fim do post (tem links para as 2 melhores imagens em HD)

Agora para que seja mais Medicine related ponho por aqui imagens resultantes de um paciente que se apresentou com Trombose da Veia Central da Retina, e pela beleza da imagem (parece uma representação do Annapurna)
Como podem ver na imagem primária há uma elevação de todo o tamanho e feitio no centro da mácula...tipo este gajo não vê nem que a Cicciolina baile nua a 5cm do nariz dele. para imaginarem, rebentou um vaso no meio de uma serie de capas cujo espaçamento entre fibras está na ordem do micrómetro e algumas camadas tem uma espessura inferior a 1 eritrocito, agora imaginem uma hemorragia... Os espaços a negro representam fluido, comparem com as imagens normais e tentem visualizar a destruição!


A seguir vemos uma comparação da evolução do quadro em 2 semanas... a primeira foi sacada no momento do diagnóstico e a segunda 2 semanas depois e podemos ver que a segunda parece melhor, não fosse o facto de haver um espaçamento superior entre as capas que diminui a sensação de montanha... o quadro é muito mau  a sério.
Espero que gostem... Comentem plz!!!!!!

O que queres ser quando fores grande?! Parte IV e última
Bem acho que já chaguei o suficiente com este tema, e apesar de ter uma lista com os prós e os contras de cada uma das especialidades, vou optar por não pôr aqui...quem quiser peça-ma que eu envio uma cópia dos meus gatafunhos durante e a palestra.

Um abraço e boa sorte
O que queres ser quando fores grande?! Parte III
Quem diria post sobre medicina no meu blogue :)


Como tenho vindo a contar assisti a umas jornadas de orientação profissional e curiosamente tive de esperar ate ao último dia para que me iluminassem o obscuro processo de selecção de especialidade, obrigando-me a colacar mais variáveis na hora de decidir, mas no fundo (e como em todos os algoritmos de decisão) acaba por aclarar ou diminuir alguns factores de confusão, que influenciam na decisão de um futuro profissional
 Espero que por um lado a colagem de ideias que constitui os apontamentos que tomei durante a conferência não constitua plágio uma vez que a senhora da palestra se mostrou muito territorial com as suas ideias, mas ainda assim espero que possa servir para alguma coisa aos que por aqui passem.

Primeiro é preciso ter um método...ora uma das coisas mais porreiras que a senhora expôs foi o método de pré-seleção de especialidades em 10 passos. Ninguém duvida que não se deve (pode) ir para a seleção com apenas uma especialidade, ou um sítio para exercê-la, devemos elaborar uma pequena (enfatizando a palavra pequena no seu máximo expoente) porque se trata de ter alguma alternativa não de abarcar tudo.

Como fazer essa lista??? Cá vai!

  1. Elaborar uma lista con as especialidades que NUNCA estarias disposto a fazer...Parece óbvio mas o mais importante é tirar palha do meio..quanto antes melhor! Podem ser médicas, cirúrgicas ou médico-cirúrgicas, o importante é ter claro que são aquelas que nem que te pagassem a rodos acabarias por fazer, se existir a menor possibilidades de que as aceites não as coloques aqui
  2. Agora vamos explorar as nossas aptidões e atitudes...podes cingir-te ao algorritmo acima expuesto ou podes analizar amplamente a tua filia pelo bloco, a tua ânsia de intervir, ou a capacidade para não dormir, o objectivo último é decidir médicas vs cirúrgicas e eleger pelo menos uma, máximo três que gostarias de fazer dentro dessas duas áreas
  3. Agora é questão de baralhar as hipoteses médico-cirúrgicas, que uma vez que estão a cavalo entre uma e outra são uma dor de cabeça para descartar ou incluir... no entanto pensa no que te interessam especialidades como a Oftalmologia, Otorrinolaringologia, Dermatologia, Gineco-Obs, Oncologia ... escolhe duas que te entusiasmem
  4. Por estas alturas devemos ter uma lista com as impossíveis, as prováveis e as que talvez...
  5.  Ordena as especialidade que escolheste por ordem decrescente em menos de 10'' tudo o resto será demasiado pensado e impedirá uma escolha.
  6. Agora começa o bonito...tens que começar a fazer as perguntas dificeis...estás disposto a deixar a tua cidade ou não? Isto coloca sobre a balança a questão dos amigos, familia, casa, namoradas,...
    Se a resposta for sim então prepara-te para aguentar a bronca e escolhe 3 lugares que por motivos académicos, afinidades ou por pura possibilidade possam ser destinos preferenciais para o teu internato
    Se a resposta fôr não aguenta-te à bronca e prepara-te para morderes as unhas na sala onde se escolherem as vagas ao compasso das que fores vendo serem preenchidas no sítio de onde és :) confere a tua lista de preferencias e elimina qualquer especialidade que não se encontre disponível na tua zona de residência
    Neste ponto é também importante decidir que tipo de Hospital é aquele onde vamos estar, uma vez que a experiência é diferente segundo o tipo de centro em que estamos...hospitais pequenos representam uma mais valia para as valências generalistas uma vez que o leque de acção é maior (há menos especialistas), mas a falta de meios faz com que sejam limitadas as valências mais técnicas; os hospitais grandes é precisamente o contrário mas em ambas as áreas os pacientes chegaram super filtrados pelo que o mesmo que o torna interessante (casos raros) vai fazer dele monótono.
  7. A partir daqui toca a trabalhar! É vital contactar Internos de 2º ano que possam orientar-te sobre o futuro da especialidade e Internos de último ano para termos uma perspectiva sobre como é a especialidade no ambito global
    Contudo devemos evitar os extremos que viciam a informação...não perguntar ao típico interno neuróticom a ponto de começar a matar pacientes para que finalmente possa dormir, nem ao interno optimista para o qual tudo são flores num claro sinal de que ou está a fazer dermatologia ou assaltou o armário dos psicotrópicos! Opinoes tranquilas e fundamentadas costumam andar muito próximo da verdade, pelo que deves basear-te nessas.
    Alguns aspectos a ter em conta:
                           Salário,
                           Onde se rota durante o internato,
                           Implicação,
                           Urgências (24h),
                           Obtenção de competências
                           Ambiente de serviço
                           Aspectos de referencia en patologia (protocolos seguidos e afins)
  8. Se escolheste cirúrgicas o mais importante é escolher um hospital onde te deixem meter mãos à obra, que é como mais se aprendem, onde se opere muito e de preferencia patologias estranhas, estes são por definição os hospitais de nivel 3. Aqui os internos entram às patadas e por muito chato que sejam os assistentes o volume de trabalho fará com que tenham que meter mãos ao trabalho ou pelo menos estar a fazer algo mais produtivo do que consumir oxigénio na sala de operações até que saiba de cor a intervenção ou segurar paredes enquanto conta as gotas que saem dos drenos de cada um dos post-operados. Aprende a jogar algum desporto , compra um carrão ou simplesmente mete um par de meias dobrado nas calças/soutien, porque é certo e sabido que os cirurgiões têm o complexo de Deus (tou a brincar...too much "Scrubs" into this mind!) De qualquer das formas eu já tou preparado, aprendi a jogar Basket, tenho um VolksWagen de 1989 (um autentico vintage car) e as pessoas continuam a dizer que tenho metida nas calças um que outro par de meias (mas isso...não interessa nada)
  9. Se escolheste médicas (primeiro bem-vindo ao clube), o melhor é contactar o staff do sítio (sim certamente serão uns freaks como tu que te dedicas a ver blogs na internet para saber para onde virar-te e partilharam contigo avatares para os forums onde mais podes aprender :p) para onde vaus via internet e cruzá-lo com bases de dados médicas internacionais para ver o nível de investigação que por aí se cozinha caso tenhas na mira um doutoramento... Se se tratar de uma especialidade técnica, serviços grandes, e de uma generalista hospitais de media dimensão onde acabarás por apanhar tudo o que não houver mais ninguém que faça no hospital (tipo Med Interna em Guimarães onde até as biopsias ósseas é o internista que faz)
  10. Procura saber quem são os teus colegas para saber se o relevo geracional permite a que optes por continuar nesse hospital uma vez terminada a especialidade (ai é...não te esqueças que depois da especialidade tens que "buscarte la vida")
  11. Finalmente o aspecto mais importante...tem em conta que deves escolher uma especialidade que te motive para o estudo contínuo e que o dia-a-dia laboral seja agradável con um ritmo de vida que estejamos dispostos a seguir. Se possível imiscuam-se nos serviços dos hospitais onde gostariam de trabalhar pois não há nada como a observação directa
Em suma há muita especialidades que são interessantes no papel, mas que acabam por ser monótonas por isso têm atenção...experimenta e escolhe com calma porque a pergunta mais dificil do acesso à especialidade é a 101ª, mas a essa tens pelo menos 40 anos para responder!

Ainda há mais mas vai ficar para outro post
    O que queres ser quando fores grande?! Parte II
    Depois da pastinha da moda e da caneta da praxe ou dos briq-à-braq típicos das conferências médicas, sou assaltado pela refrescante ausência dos abutres farmaceuticos que normalmente rondam estes eventos tentando impingir a droga XPTO que traz apenas um novo excipiente que confere ao novo fámaco um excelente sabor a cera de ouvido... sorriu no encontro de colegas meus, hoje no alto comando da academia de alunos internos cujas raizes protestantes se recusam a desaparecer mesmo com a proximidade do mundo laboral.

    É no entanto esperada uma boa dose de auto-promoção do CESM, que de certa forma pode ser positiva, afinal o aletargado bicho estudioso que é o estudante de medicina vai cair de cú quando se se vir no meio do mercado laboral sem conhecer os sindicatos (teóricamente os representantes máximos dos seus direitos&deveres). Enfim é certo que será instrumentalizada esta conferência, mas pelo menos por um bom motivo.



    (acreditem aqui a imagem do boneco é mais do que propositada)

    As apresentações sucedem-se e a mais curiosa de todas esta tarde é a apresentação do que é a Med Militar...quem viveu em España ou conhece a história contemporânea do país não poderia deixar de rir quando ouviu o encarregado da secção de recursos humanos do exército, já que este parecia uma personificação da esganiçada e efeminada voz do General Franco esse ditador que conduziu os destinos de Espanha com punho de ferro e voz de adolescente histérica à porta de um concerto dos N'Sync. O esforço maio durante a sua exposição foi de apresentar a imagem de médicos missionários de paz, coisa que não se enquadra com a visão que me ofereceram há um ano num blog sobre saúde no exército (do qual não recordo o nome, Javier se te lembrares comenta p'aí) em que os médicos eram metidos em jeeps armados até aos dentes, com uma companhia de yankees drunfados em tudo o que pudessem deitar a mão para atenuar o medo e o stress de passear nas ruas armadilhadas do Afeganistão. Mas pronto... ainda houve alguem que lhe perguntou como é que poderia considerar missões humanitárias sendo estas por definição ajuda a civil por um civil e depois como se garantiam os direitos das mulheres como as que estão grávidas e etc... que propocionaram algumas respostas mais tensas, mas de resto bastante normal! O salário é calculado de acordo com o teu posto, tens um contrato de permanencia de 5 anos pós-formação, és obrigado a participar em missões "a demanda" de 6 meses no máximo, tens formação militar em qualquer dos três ramos das forças armadas passando obrigatoriamente por uma escola especializada, mas que te dá a oportunidade de alcançares três especialidades médicas raras e bastante interessantes (Medicina acuática & Hiperbárica, Medicina Aeroespacial e outra que não me lembro) Naturalmente não oferta todas as especialidades, mas é uma opção viável se não tens grandes planos de sedentarismo e gostas de todo a parafernália que ronda o tema Militar.

    Hoje ainda passaram revista Med Desportiva, cujo conteúdo mais interessante foi a divulgação do site da FEMEDE (Federación Española de Medicina Deportiva)que deixo aqueles que como eu até se interessam pela área (FEMEDE); de notar que é uma especialidade cuja residência/internato não é remunerada (aqui em Espanha) e que pode ser feita como curso independente sob o pagamento de uma exorbitância às três escolas que a impartem deste lado da fronteira...isso sim é super reconhecido lá fora.

    Medicina Forense (rama da Med Legal) também esteve por cá a entusiasmar-nos com uma versão realista desses CSI's de trazer por casa embrulhadas nos requisitos legais para acedermos a essas vagas, que se obtêm por concurso público e não pelo MIR, como o resto das especialidades.


    Médicos sin Fronteras, (ONG) teve a apresentação mais comentada e interessante do ponto de vista interactivo, já que foi dada pelos nossos colegas que na faculdade representam esta organização...para os que não sabem é uma excelente opção, mas implica especialidade própria (as mais procuradas por estes são Med.Interna, Pediatria, Cirurgia Geral, Anestesiologia e Traumatologia/Ortopedia) e pelo menos 2 anos de experiência (contam os anos que estiveste a tirar especialidade) antes de poderes embarcar numa aventura destas.
    Interessante...a sério, mas só depois virá o prato forte, como escolher uma especialidade...agarrem-se até ao próx post :)
    O que queres ser quando fores grande?! Parte I
    Hoje ainda não é dia de estudar a sério (e neste momento os leitores perguntam-se como se estuda a brincar,...) não, hoje é dia de orientação professional! Vamos!!!

    Num ataque de pedagogia incidentalmente genial, o CESM (Confederação Estatal de Sindicatos Médicos), a Academia de Alumnos Internos da UVa e alguns dos nossos ilustres docentes reuniram -se para ajudar ao desorientado (sim é preciso ver que a quantidade de horas de estudo que nós metemos no corpo desorienta qualquer um) estudante de medicina a encontrar uma saída professional que passa obrigatóriamente pelo calvário de aprovar o MIR (ou o Exame de acesso à especialidade em Portugal).

    Tendo conta a hercúlea tarefa que representa examinar-se segundo os desígnios de um qualquer Deus menor que decide o nosso futuro a talhoa foice da nota do exame, ter uma perspectiva ampla daquilo que nos espera, faz com que o salão nobre de actos da faculdade está cheia de olhinhos miopes (para os que não sabem isto é uma contradição, dêem uma vista de olhos na definição de miope e perceberam) pelas 14 h de estudo diário que se impõem para tirar um nota decente no tal exame, gratos pela desculpa de precisarem de orientação para enfrentar a lotaria que representa a seleção de residência/especialidade.



    Expectante mas anormalmente à margem do pânico generalizado dou por mim a pensar na classe de guias que me vão apontar.Os oradores provêm das áreas, a meu ver menos requisitadas pelos estudantes, tipo Medicina Militar, Medicina Sem Fronteiras, Inspector de saúde, Medicina do Trabalho, Epidemiologia/Preventiva, Medicina Desportiva, Oncologia....como se viesse convencer a enveredar por um caminho mais moderado e paliar a avalanche de povo que quer "acaparar" uma especialidade melhor paga, melhor vista, mais desafiante ou simplesmente mais calma (ainda me hão-de explicar a vocação desenfreada por Dermatologia para que seja tal a procura que se esgotem as vagas nos primeiros candidatos, mas isso noutro post)


    Bem mas aqui estou, caneta e papel na minha mão, tarefa escolar para cumprir, tentando mais uma vez no meio de um sorriso pesar os prós e contras de uma eventual carreira en España, não vou fechar essa porta para já - como dizia a Maya essa vidente capa da FHM Portugal [que tristeza] -> "Não negue à partida uma ciência que desconhece". Sei que não me vão ajudar nos temas pessoais que pesam na decisão como elefantes grávidos, mas estou certo que focaram os aspectos importantes, aptidões e requisitos para conseguir esta ou aquela especialidade e curiosamente há uma "charla" sobre o aspecto económico que apesar de ser tema latente e crucial para todos os estudantes que se empenharam até às orelhas para conseguir comprar o Lehninger, o Harrison, o Guyton, o Farreras, o Robinson,... e até o maldito estetoscópio que custa os olhos da cara!

    Xiu!!!!! Vai começar... depois falamos
    The road of a Medicine man


    3 anos de secundário onde, sejamos realistas, vemos grande parte do tempo a ser emprestado aos livros/actividades extracurriculares; 6 anos!,não 4,não5, mas SEIS anos de curso orientado no sentido de inculcar-nos os conhecimentos básicos necessários para formar um médico apto no âmbito da Medicina Geral e ainda nos obrigam a esperar um ano como IAC (Interno de Ano Comum)? Isto se tudo corre bem e alcançamos o número dourado que nos dá acesso à especialidade X no lugar Y ou no lugar Y a especialidade qualquer -> normalmente o processo mental do estudante de medicina frente ao monstro do Exame de Acesso à E [EAE]

    Fica p'a depois uma crítica ao EAE, hoje incomoda-me especialmente o facto de ter que considerar que um estudante de medicina uma vez terminado o curso de SEIS anos (volto a repetir), não tem autonomia para exercer e é obrigado, até ser aceite num programa de especialidade, a "trabalhar" como IAC, aspas para dotar o verbo trabalhar de um carácter hiperbólico já que na minha perspectiva, e na de vários colegas que passaram pela experiência ou estão prestes a embarcar nela, picar o ponto e "arengar" pelos corredores não é propriamente trabalho!
    Não acredito que qualquer um de nós (estudantes de medicina), se sinta minimamente preparado para enfrentar um paciente sozinho, e acho que a medicina tutelada é uma mais valia para a introdução suave no mundo de responsabilidades que representa a clínica geral, mas não devia ser disso que se tratava o 6º ano -> o ano professionalizante? Mesmo que se mantenha o AC não seria razoável admitir que uma vez feito se deveria obter a autonomia profissional?

    É frustrante pensar que depois do sexto ano (que representa em muitos aspecto o primeiro embate a sério com o mundo médico), onde a responsabilidade, o confronto diário a máxima socrática, "Eu só sei que nada sei!" e o choque de ser avaliado em 5minutos por um novo ente da nossa vida profissional: os pacientes, nos precipitamos a devorar páginas infinitas de saber médico concentrado em percentagens e esquemas para depois entrar numa espécie de limbo educacional que se perpetúa até que sejamos aceites como internos do bem-aventurado colégio da especialidade que nos acolherá! Isto sem falar na corrida às notas necessárias para escolher hospital, esse fantasma que nos persegue antes do curso, durante o curso e depois do curso!

    Não quero ser velho do Restelo, muito pelo contrário, mas se é assim tão importante o AC reinstaurem a antiga rotação pela periferia, onde realmente se aprendia alguma coisa! Suponho que a pressão do mercado laboral e o arrepio frio que provocava na espinha de médicos que desdenhavam o suposto desterro, sem lhe ver o potencial pedagógico, tenham levado a recortar essa importante fatia da formação de um bom médico. Mas talvez se se der verdadeira aplicação prática ao 6º ano, seja redundante o AC e se possa dar autonomia aos licenciados, mestrados aliás,sim porque quando acabamos o 6º ano SOMOS MESTRES EM MEDICINA, que não podem exercer. Afinal é asim que se faz no resto da Europa, à qual com tanto esforço e a qualquer preço as Universidades estão a tentar aproximar-se!
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